Quando a Clara chegou

Nascimento Clara

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Sabe aquele parto tranquilo, que todo mundo sonha?! Este foi o parto da Fabi.

O fato de ter sido uma gestação de baixo risco, de ter sido em sua casa, com pessoas que ela confiava por perto, foi fundamental neste processo, entre tantas outras coisas, mas antes de tudo é preciso dizer que a tranquilidade estava dentro dela, que a confiança em si, e a confiança ontológica deste processo natural do parir, já havia criado raízes e por isso também a tranquilidade se expandiu para além dela mesma… E isto sim, fez toda a diferença do mundo!

Conheço a Fabi a algum tempo, e nos tornarmos amigas assim, de graça, logo de cara já nos amamos! E poder acompanhar sua trajetória, poder estar presente neste processo do gestar, parir e amar, faz com que eu me sinta uma pessoa de muita sorte! Aprendi, e aprendo muito com ela, com suas experiências, com suas escolhas. Por isso Fabi, gratidão imensa pela sua amizade, pelo seu carinho, pelo seu amor!

Que este registro, além de ajudar a reempoderar outras mulheres por este mundão, que ele possa te encher de ternura!

E agora o relato da Fabi, contando um pouco da sua jornada neste universo do parto respeitoso, do parto humanizado, até o nascimento da Clarinha.

Fiquei pensando como iniciaria meu relato, pois não sei ao certo qual momento exato essa história iniciou. Pensei bem e vou começar pelo parto do Quim (Joaquim), nosso filho mais velho, hoje com 2 anos e 7 meses. Eu e meu marido, Deco (André), sempre fomos “defensores do parto normal” – digo defensores pois ainda não conhecíamos o ativismo, não havíamos nos aprofundado no assunto, e quando engravidamos do Quim, apenas queríamos e tínhamos certeza de que teríamos o nosso parto normal.

Na época tínhamos um bom plano de saúde, precisei fazer tratamento para engravidar e quando conseguimos recorremos a um famoso médico humanizado aqui de Curitiba. Tivemos um lindo parto normal humanizado hospitalar, que enxia a boca e praticamente gritava aos 4 cantos o quanto fui vencedora em ter conseguido meu sonhado parto na rede privada, numa maternidade onde 90% das gestantes entravam para fazer cesárea. Foi um parto tranquilo, de 16 horas de duração, porém algumas intervenções (mínimas) ainda me deixavam na dúvida da real necessidade. (Caso queira ler o relato do parto do Quim posso enviar por e-mail). Tive uma doula imposta pelo obstetra, o parto ocorreu em litotomia (posição frango assado), minha bolsa foi rompida artificialmente, estiramento do períneo… Como todo parto hospitalar, as coisas não fluem como devem, a pressa, os horários, a liberação da sala de parto. Não entrarei em detalhes, mas essas e algumas outras intervenções não me deixavam felizes, por mais que ocorreu tudo bem.

Acervo Pessoal Fabíola Benetti

Acervo Pessoal Fabíola Benetti

Após o nascimento do Quim me aprofundei no mundo da humanização do parto, do ativismo. Fiz curso de doula e quando ele completou 1 ano, comecei a acompanhar partos, auxiliar e informar gestantes. Quando minha amiga Deise Basquera se formou em enfermagem obstétrica, formamos um grupo de apoio ao parto e a maternidade, onde fazíamos encontros para gestantes, informávamos, “reempoderávamos” as gestantes e começamos a acompanhar partos domiciliares.  Nossa história começou a cerca de 10 anos atrás, quando nos conhecemos no cursinho pré-vestibular e com a maternidade nos aproximamos ainda mais.  Dizemos que nossa amizade vai além da vida, só pelo olhar conseguimos saber o que uma e a outra estão pensando.

E em um desses encontros de gestantes que fazíamos, conhecemos a Marcinha, fotógrafa de partos, que foi para divulgar seu projeto e ali iniciamos uma amizade linda!

Quando o Quim havia completado 6 meses resolvi parar com o uso de anticoncepcionais já que eles me faziam mal e eu não engravidava com facilidade. Em novembro do ano passado (2014) resolvi refazer meus exames para avaliar os cistos no ovário, os quais não me deixavam engravidar. Eu e o Deco sonhamos em ter uma família grande, vários filhos, em escadinha como dizem, um atrás do outro…rsrs… Então iniciei a bateria de exames com objetivo de engravidar novamente, sem pressa, deixar a natureza agir, sem forçar…

Em janeiro por orientação de uma amiga obstetra fiz testes de ovulação, já que mesmo tendo cistos (tenho SOP) e amamentando, já havia voltado a menstruar, então havia possibilidade de haver ovulação mesmo sendo quase impossível. Realizei todos os exames de ovulação como orientada e todos deram negativo.  Nesse mesmo mês completamos 1 ano de casados, (casamos ano passado, após 7 anos juntos), então no nosso aniversário de casamento (dia 25/01) fomos comemorar, deixamos o Quim na minha sogra e fizemos como fazem os casais normais… hehehe.

Em fevereiro, mesmo desanimada com os resultados dos testes, comecei a ter dores insuportáveis nos bicos dos seios, que cheguei várias vezes a chorar amamentando o Quim, que completava 1 ano e 10 meses. Esperava a qualquer momento menstruar, já que eram ciclos desregulares, achava que estava em TPM.

Por insistência de uma amiga, Amarilys, que acreditava firmemente que eu estava grávida, demorei em torno de 2 semanas esperando a menstruação e já que não vinha, para tirar de vez a pulga atrás da orelha, mesmo tendo em vista os exames de ovulação negativos, comprei um teste de gravidez. Havia combinado de ir para casa de uma tia, logo que cheguei lá fui ao banheiro com o Quim (que estava desfraldando) e já realizei o teste ali mesmo e: PIMBA! POSITIVÃO! Naquele momento meu mundo parou, eu silenciosamente abracei o Quim e comecei a chorar de emoção! Não acreditava estar vendo os dois risquinhos e dizia para ele: “FILHO, VOCÊ TERÁ UM IRMÃOZINHO OU UMA IRMÃZINHA!” Ele me abraçava, sorria e fazia carinho na barriga com o seio já na boca! Foi uma felicidade infinita!

Contive-me e não contei para minha tia, porém assim que ela chegou e me viu, Joaquim disse: “mamãe tá chorando!“ e ela mais que ligeira: “porque? Tá grávida?” ..kkkkk… a felicidade era tamanha que não segurei o segredo!  Então mandei foto do exame para Deise, para minha irmã Brena e para Amarilys que tanto havia insistido: e ela acertou! Eu estava grávida mesmo! E para mim aquilo era muito mais motivo de alegria, ter sido naturalmente, uma surpresa maravilhosa, mais um “milagrinho” estava a caminho!

Então precisava contar para a pessoa que mais importava aquilo: o Pai…rsrs. Queria lhe fazer uma surpresa, daquelas que a gente vê nos vídeos da internet. Mandei mensagem dizendo que precisava conversar com ele, que havia descoberto uma coisa muito importante sobre ele, que precisava de uma decisão muito séria… Ele estava trabalhando e quase matei o homem do coração! Rsrs.. Não conseguiu mais se concentrar no trabalho, me ligou inúmeras vezes, das quais atendi apenas uma e mesmo sendo pressionada disse apenas que em casa a gente conversava!

Chegando em casa, preparei uma carta com os dizeres: “PARABÉNS, VOCÊ SERÁ PAPAI DE NOVO!! “ E junto o teste de gravidez. Coloquei o Quim para dormir, preparei a câmera para gravar a reação, mas quando ele chegou, esqueci de apertar o play e entreguei a carta.  Lembro dos olhos marejados e da pergunta: “Mas não havia dado negativos os exames?” …rsrsrs.. Nos abraçamos e não conseguimos  falar mais nada que não fosse no Vicente ou na Clara!

Acervo Pessoal Fabíola Benetti

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No dia seguinte fui fazer o beta, apenas para comprovar o que já sabíamos. A felicidade era tamanha, queríamos guardar segredo, esperar o momento certo para contar aos amigos e familiares porém assim que saiu o resultado do exame não contive a alegria… Tirei uma foto do Quim segurando a plaquinha: “FUI PROMOVIDO A IRMÃO MAIS VELHO!” e postei nas redes sociais. Para surpresa e alegria de todos!

Acervo Pessoal Fabíola Benetti

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Assim iniciei o pré-natal, e no mesmo mês o Deco foi demitido, não foi surpresa, porém não era esperado. Tivemos que passar o pré-natal para o SUS, isso não era problema, mas coisas financeiramente seriam diferentes.

A escolha do parto não tínhamos dúvida, não sairíamos de casa a não ser por uma emergência, sim: teríamos um parto domiciliar planejado, na água, como eu sempre havia sonhado, como eu ajudei a realizar de tantas gestantes: agora seria a minha vez!

A gestação foi toda tranquila, não tive nenhuma alteração de exames, a não ser uma dor que eu nunca havia sentido: nervo ciático, na lombar e uma dor terrível nas costelas do lado direito… Que me acompanharam até o fim. Pratiquei Yoga e principalmente no terceiro trimestre eu fazia caminhadas matinais. Esses exercícios ajudaram a diminuir as dores.

Com 20 semanas de gestação, fomos fazer o ultrassom morfológico, até então não sabíamos o sexo. Sinceramente, eu não gostaria de ter sabido o sexo, para mim naquele momento era indiferente, por mais ansiosa e acreditando no meu instinto (falho nessa gestação), o pai e familiares eram contra, então não poderia fazer segredo e decidimos saber o sexo. E tcharam: UMA MENINA! Que mesmo sem pensar já tinha dito o nome ao médico: nossa Clara estava a caminho!

Sobre o Joaquim: pense numa criança apegada, com tanto amor por aquela barriga crescendo… Não entendia ao certo como a irmã estava ali dentro, mas beijava, abraçava, não gostava que eu andasse com a barriga de fora pois segundo ele: “A Calinha vai sentir frio!” , ele me  acompanhou durante as consultas, exames e ultrassons, ficava ansioso quando dizíamos que íamos ver ela. Pensando nesses momentos imaginava como ele reagiria durante o parto. Então mesmo já assistindo aos vídeos de parto comigo e conversava com ele explicando como seria, e ele mais que experto, quando perguntavam onde a irmã nasceria ele respondia: “Vai nascer na água e eu vou segurar ela!” Morria de amor! Rsrs..

Durante a gestação tive que diminuir as mamadas, principalmente as noturnas. Não apenas por conta da perturbação que sentia, mas pelo sono que para mim estava sendo necessário. Também me preocupei como eu amamentaria os dois, eu sonhava com aquilo, amamentação em tendem seria mágico. Então também com muita paciência e carinho conseguimos tirar a mamada para dormir, ele dormia sem mamar, em troca de carinho, historinhas e uma mexa do meu cabelo que ele costuma a enrolar enquanto mamava, virou habito para dormir. Mas as mamadas durante o dia continuavam sem problema, porém devido aos hormônios da gestação um dos meus seios não produzia mais leite e o outro saia um pingo, quase nada, mas ele não deixou o mama. Por volta de 7 meses da gestação e em uma dessas mamadas diárias, senti o leite descer, e ele com sorriso no rosto largou o mama e disse: “Tem mais leitinho, mamãe! É docinho!” … Era o colostro!

Acervo Pessoal Fabíola Benetti

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Com 36 semanas, dia 13 de setembro, comecei a arrumar as malas, que para mim era algo que estava fazendo a toa, já que não sairia de casa. Mantinha a casa sempre organizada, geladeira e armários cheios de comida. Não conseguia conter a ansiedade e a energia que surge de algum lugar que não sei explicar. Rsrsrs… Eu que sempre aconselhava as minhas gestantes a se distraírem, agora havia chego a minha vez de me distrair… Saia para passear com o Quim, íamos a parques, ou mesmo no parquinho do condomínio que fosse, passava o dia brincando e dando atenção a ele, já que em algumas semanas a atenção seria dividida, algumas dessas brincadeiras passávamos pulando na bola de pilates, até gravamos um vídeo. rs

Com 37 semanas fiz o ultimo ultrassom, a bebê estava enorme, explicava as dores nas costelas… Em torno de 3.800 e 51 cm… Segundo o médico era melhor agendar a cesárea, pois se esperasse até dar sinais a bebê ficaria muito grande e não nasceria de parto. (hahammm..)

Com 38 semanas minhas amigas preparam um chá de benção. Era algo que eu havia planejado, que eu já havia feito para algumas gestantes e sonhava em fazer, porém elas preparam e se tornou um evento tão lindo, mágico e realmente abençoado! Foi um dia incrível, recebi vários presentes, prepararam escalda pés, bandeirolas com recados, acenderam velas com desejos de cada uma, um arranjo de rosas brancas, pintaram a flor de lótus em minha barriga e ainda dancei dança do ventre como não fazia a anos! Foi uma tarde linda e muito emocionante!

Para quem não conhece o chá de benção é uma cerimônia inspirada em rituais do povo Navajo, é um evento feminino para nutrir a gestante, enchendo-a de amor e confiança, enquanto ela aguarda o nascimento iminente de seu bebê.  Dentro um círculo de amigas e familiares, em uma suave cerimônia espiritual, este evento marca o rito de passagem de uma mulher para a maternidade, é uma cerimônia de empoderamento perto da hora do nascimento, que comemora a irmandade, a vida, as boas-vindas ao novo bebê, e o renascimento desta mulher. E o meu, foi tudo isso um pouco mais!

Pronto, estávamos abençoadas, dizia: “Filha agora pode vir!”. Os dias vinham e iam, a ansiedade se misturava com a emoção de que o grande dia estava chegando. Os pródromos intensos, as noites se tornavam longas, e as idas ao banheiro mais constantes. Cada dia mais difícil… Passava o dia com contrações regulares, porém chegava a noite elas paravam. Eu tinha certeza que a Clara nasceria antes das 40 semanas, mas algo não estava certo, não estava ajudando.

As semanas foram passando, com contrações direto, algumas fortes, outras imperceptíveis. Ia dirigindo até as consultas com o Quim. Algumas vezes até parava o carro no acostamento para poder respirar e aguardar passar.

Pela situação financeira, eu e o Deco tínhamos discussões diárias, fazendo com que nos distanciássemos. Ele estava nervoso por não conseguir emprego mesmo indo a diversas entrevistas e eu com emocional abalado, chorava constantemente, sabia que estava insuportável, pelos hormônios, noites mal dormidas, dores constantes, carência…  Até o dia em que caí na real. Precisava me conectar com ele, estávamos distantes, mal nos olhávamos. Não conseguia conversar, então mandei uma mensagem pedindo desculpas e relatando tudo o que eu sentia e precisava contar. Quando ele chegou nos abraçamos, chorei, trocamos palavras de carinho e assim senti que havíamos nos conectado novamente, estávamos em sintonia. Então enquanto ele preparava o jantar fui para as escadas do bloco, subir e descer para ver se engrenava.

No dia seguinte pela manhã, dia 7 de outubro, com 39 semanas e 3 dias, depois diversas contrações fortes, fui ao banheiro e ao me limpar saiu um resto de tampão com um tom mais escuro. Fiquei animada. Passei o dia arrumando o quarto onde seria o parto, subindo e descendo do banquinho onde subia para colocar coisas em cima do guarda roupa. Arrastei móveis, fui a frutaria, ao mercado, fiz os últimos preparativos… Contrações a cada 8 minutos, intensas… Por achar que fosse TP falso tentei não ficar contando. Então por volta das 17 horas as contrações estavam mais fortes e mais frequentes.  Tentei me distrair…

Quando o Deco chegou avisei que estavam mais frequentes, mandei mensagem para a Deise, que seria minha parteira, para se preparar, porém achava que a qualquer momento iria parar.

Onde moro, toda quarta-feira tem feirinha, aquelas de frutas e pastel. Como ultimo desejo de grávida pedi ao Deco para irmos comer um pastel e logo após eu voltaria e iria tomar um banho para ver se seria mesmo trabalho de parto, caso não fosse as contrações iriam parar.

Fomos a feirinha, e na ida o Deco já avisou o porteiro: Caso alguém ligue aqui questionando a gritaria, avisa que ela está parindo, mas que está tudo bem pois estaremos com equipe de assistência! Também chegará a Deise, que é a enfermeira que nos acompanhará, a Marcia que é a fotografa e a Brena que é irmã da Fabi!” – o porteiro muito gentil só respondeu: “tudo bem!” e deu um sorriso. Na feirinha encontrei uma vizinha que perguntou como eu estava e respondi: “Quase parindo! Com contrações a cada 5 minutos!” Ela se assustou e rindo disse: “e está nessa calma toda?” –Mesmo achando que as contrações poderiam parar eu estava bem tranquila, cansada, feliz, mas tranquila. Compramos o pastel e voltamos para o apartamento. Comi tranquilamente, com cafezinho feito pelo marido e fui para o banho, era por volta das 19 horas, avisei a Deise que iria para o banho e se as contrações continuassem eu pediria para virem. No banho fiz auto toque, algo que fazia em todo banho desde que as contrações estavam cada dia mais frequentes.  Porém não havia sentido com tanta exatidão como naquele, eu devia estar com uns 6 para 7 de dilatação.

Fiquei em torno de meia hora, onde tive duas ou três contrações fortes, e gritava para o Deco apertar o play no aplicativo que auxilia a contar contrações. Após o banho deitei no sofá e fiquei aguardando as contrações. Que demoraram em torno de 20 minutos para voltar. Nisso sem que esperasse, entram pela porta (sem bater mesmo por que aqui elas são de casa! Haha) a Deise e a Marcinha.  Questionei o que faziam ali já que eu não tinha certeza se estava em trabalho de parto, e Deise me olhou e disse: “Amiga, você está em trabalho de parto!”, já nem respondi, tentei descansar, não olhei mais relógio. Avisei minha irmã que poderia vir e assim me entreguei…

Quando eu entrasse em trabalho de parto eu desejava bater um bolo, era o que eu aconselhava as gestantes para se distrair, não pensar e não esperar as contrações. Então fui eu bater a mão um bolo de laranja. Enquanto eu fazia isso o Deco e as meninas começaram a preparar e encher a piscina. Eu já estava entrando no maravilhoso mundo da partolândia! Coloquei o pen drive com minha playlist de parto para tocar e lembro deles falando que a piscina estava furada e pedi para minha irmã trazer um remendo.

Já passavam as horas sem que eu percebesse, o Deco foi fazer o Quim dormir, que vendo tudo aquilo começou a ficar agitado. Fui deitar com eles, pois ele pedia por mim e expliquei que seria melhor ele descansar que logo a Clarinha chegaria e acordaríamos ele para conhecê-la. Era engraçado que eu deitava, ficava minutos ali com eles e não sentia mais as contrações. Então me levantava e caminhava pelo corredor do apartamento e elas apertavam. Os dois dormiram, achei justo deixar o Deco descansar, pois havia trabalhado durante o dia e no momento certo eu o acordaria. Sai do quarto e minha irmã chegou.

Pedi para que ela fizesse a cobertura do bolo que eu já havia tirado do forno, nesse momento já estava longe, contrações próximas, então fui para o banho, lá fiquei na bola até que a chave caiu. Sai do banho, acordei o Deco para ligar a chave novamente enquanto isso fiquei andando ou pulando na bola, e quando chegavam as contrações eu apenas rebolava e respirava fundo. Nesse hora senti que meu momento de transição havia chegado.   O Deco sentou no sofá, começou a me fazer massagens, me deu carinho.  Era disso que eu precisava, ele ali ao meu lado as coisas pareciam completas! Ele ali ao meu lado me deu mais força, mais energia… Era o que nós havíamos sonhado. Nossa família estava crescendo, nossa menininha chegando. Então eu abraçava e agradecia mentalmente por ter ele em minha vida, por estar na minha vida, por proporcionar tamanha felicidade. Que nós estávamos evoluindo. Nós éramos apenas 1 naquele momento. E as lágrimas escorriam… Tudo estava como planejamos, como sonhamos.

Deitei no sofá para descansar, lembro da Brena e a Deise conversando e tocando em minha barriga, auscultando a bebê, era único momento em que voltava para o mundo real e prestava atenção nas batidas do coraçãozinho dela.
Era quase impossível ficar sentada ou deitada. Decidi voltar ao banho pois as contrações estavam bem intensas. Os rebolados, agachamentos, a respiração já não estavam me ajudando tanto.

No banho me rendi, nenhuma posição era favorável e eu dormia entre as contrações com minha irmã segurando minha cabeça entre as portas do box.

Minha irmã e eu sempre tivemos uma conexão muito forte, eu sempre quis que ela estivesse presente nos nascimentos dos meus filhos, no do Quim não foi possível, e no da Clara era óbvio que ela deveria estar. Ela é forte, me traz paz, alegria! Ela estava ali me passando essa energia.

Quando pensei:” nossa, tá foda! Não tô aguentando, deve ser o momento!” Fiz novamente o auto toque e voilà: senti a bolsa com apenas a ponta dos dedos introduzidos!  Falei para Brena: “Veja com as meninas se já posso entrar na piscina! Acho que está quase!”, elas deram ok, e fui nua, sem me preocupar com quem estivesse ali ou com as fotos que a Marcinha estava tirando.

Quando entrei e deitei de barriga para cima na água quentinha… uaaau! Não sei explicar o que parecia, só sei que foi muito bom! Algo relaxante, incrível!

Foi quando comecei a sentir os puxos, segurei a mão da Bre e fiz força, a Deise sugeriu que ficasse de cócoras e tentei, ao mudar de posição senti a bolsa estourar! Que massa! Eu não senti a bolsa estourar no parto do Quim, dessa vez foi natural!

Então coloquei a mão, senti a cabecinha dela ali! Estava chegando a hora! Pedi para chamarem o Deco que havia voltado a dormir. Quando ele chegou, segurei sua mão e fiz força! Meu urro ecoava no quarto… Já era dia 8 de outubro, por volta 3 horas da manhã e os vizinhos? Essa preocupação nem se passava pela minha cabeça.

Não lembro ao certo quantas contrações se passaram, senti a cabecinha dela saindo e pensei: “Meu Deus, vai me rasgar!”, fiz uma força maior e a cabeça saiu, então mudei de posição, gostaria de recepcionar minha filha, não queria que ninguém a pegasse. Fiquei de barriga para cima e esperei a próxima contração fazendo carinho na sua cabecinha, sentindo a orelhinha. Então veio a próxima contração e devagar fui sentindo ela girar, desprender o ombro e sair. Tentei segura-la embaixo da água, mas não consegui.  Minha neném veio pro colo, pro meu seio, sem chorar me olhou como se me dissesse: “oi, tô bem de boa!”, eu num misto de sentimentos e emoções e soltei um simples: “Que MASSAAAA!!”.

Ela nasceu linda, gordinha, e “Clara”, cheia de vérnix! Dia 8 de outubro, as 3:17 da manhã.

Logo em seguida ela chorou e ofereci o peito, ela pegou com vontade assim como segurou o colar que eu usava (feitos pelas meninas no chá de benção). Então pedi pra buscarem o Quim, ele veio sonolento e feliz em ver a irmãzinha. Me beijou, beijou a Clarinha. Não sei se entendia o que acontecia, mas sei que aquele dia estaria marcado em sua memória e repercutiria na sua conexão com a irmã!

Na piscina mesmo, a placenta saiu, senti uma contração, fiz uma forcinha e ela saiu linda. Depois que a Clara largou o seio decidi sair da piscina. Auxiliaram a me enxugar, fui para a cama, ali tiramos a clássica foto da Clarinha conectada ainda à placenta.  O Quim e o Deco cortaram o cordão, em seguida a Deise pesou e mediu: 3.535 kg e 50 cm! Examinou meu períneo: nenhuma laceração!

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Enquanto isso, pedi para a Brena avisar nossa mãe, minha sogra e mais alguns familiares e sugeri a Marcinha a fazer o shake de placenta, ela fez com morangos, leite e um pedaço de 2 cm (ou nem isso) de placenta: todos provaram (exceto a Deise) e o Quim tomou quase tudo! Rsrs.

Nesse momento entregamos os presentes que compramos para o Quim, como uma forma de dizer a ele que sua irmã chegou e queria ser sua amiga, que o ama e que ele também é importante e não foi esquecido.

Dessa vez eu posso dizer que fiz meu parto, que fui protagonista! Dizemos que a Deise não trabalhou, ela apenas estava ali caso precisássemos, assistindo e apenas auscultando. Vivenciei meu parto de forma plena, sentindo cada contração, sentindo cada etapa! Não tenho nada a reclamar, não tem nada que gostaria de fazer diferente!  Foi incrível, indescritível! Minha filha veio ao mundo da maneira que sonhamos para ela, no seu tempo, na sua casa, com sua família ali reunida e pessoas maravilhosas!

Minha recuperação foi super rápida, o leite desceu em dois dias, (o normal é descer em três), o sangramento excessivo parou em três dias, (no primeiro parto durou 15 dias), e acredito que isso tudo devido não apenas ao parto em casa mas ao shake também. A Clara tomou seu primeiro banho com 10 dias de vida, para que absorvesse o vernix, fazia e ainda faço a higiene intima apenas com algodão e água. Já sinto falta daquele cheirinho.

Ela nasceu saudável, gordinha, mama super bem e o Quim continua mamando, até com mais frequência pois vê a irmã e fica com vontade. Ele é muito carinhoso com ela, beija, abraça, quer pegá-la no colo. Estou realizando o sonho da amamentação em tendem, é difícil, mas maravilhoso! Nós estamos reluzentes, nossos filhos são tudo, nossa família está completa!

Decidimos que gostaríamos de vivenciar a lua de leite da forma como ela deveria ser, então postamos nas redes sociais que gostaríamos de receber visitas 10 dias após o parto, porém receberíamos apenas familiares mais íntimos.  Algumas pessoas não entenderam, outras se sentiram ofendidas, outras não se importaram, mas vivemos como gostaríamos nossa lua e isso nos ajudou muito.

Só tenho a agradecer o apoio e o carinho da Deise, da Marcinha e da minha irmã, sem vocês aqui seria incompleto! Meu marido sempre ao meu lado, pela cumplicidade, pela família linda que formamos! A todos os amigos, especialmente Azindias (amigas do grupo do whats) e aos familiares que torceram e mandaram energia positiva para nós!

Em minha experiência como doula, tudo o que eu dizia para as gestantes eu tentei fazer, digo que tentei pois quando é conosco as coisas se tornam diferentes, visualizamos de outras maneiras e isso é muito interessante. No parto do Quim eu não sabia muito, foi incrível também dentro daquelas possibilidades, daquele momento.

Para fazer o registro da Clara tivemos alguns estresses, o cartório não queria registrar, mas no final deu certo. No posto de saúde, onde fiz o pré-natal, também não estava preparado para receber esse “tipo de parto”, não sabiam como fariam para solicitar os testes de ouvidinho, coração entre outros já que fazem apenas nas maternidades, no fim realizaram apenas o teste do pezinho. Infelizmente o sistema de saúde que temos no Brasil precisa se atualizar, os estudos estão sendo feitos e divulgados à anos e eles continuam atuando de maneira arcaica. Para mulheres com gestações de baixo-risco e assistidos por profissionais habilitados, o parto domiciliar é uma opção segura, e com muito mais benefícios para as mulheres e as famílias que escolhem e podem ter esse tipo de parto, segundo a Organização Mundial de Saúde. E nós temos condições de fazer com que esse tipo de parto seja mais frequente, deveria ser feito, deveria ser divulgado. Mas as informações não chegam aos pais como deveria e muito menos aos cartórios e postos de saúde. Imagino que isso será possível um dia, relatos como o meu serão vistos com mais frequência, já que o ministério está divulgando a importância do parto normal, ao respeito e ao protagonismo feminino. Oremos.

 

 

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6 respostas em “Quando a Clara chegou

  1. Nossa, emocionante. Não te conheço mas te admiro muito. Muito obrigada pelas palavras de encorajamento. Estou grávida de 14 semanas e sonho com parto humanizado. Você me deu esperanças e mais vontade de correr atrás desse sonho!

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  2. Pingback: Nascimento da Clarinha | Márcia Kohatsu

  3. seu relato me deu até vontade de parir de novo! tive dois partos, no hospital, na Suíça. a Melissa e o Leon, foram lindos! obrigada pelo texto, me fez reviver os momentos.

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  4. Pingback: The Home Birth Of Clara: À Luz Do Parto | Birth Takes a Village

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