Quando o João nasceu!

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Esta é uma experiência que acalanta, que conforta. Como quando estamos angustiados e vem a mãe nos abraçar e fala – Calma, vai dar tudo certo!!

A Larissa e o Álvaro, estavam muito bem preparados, com uma gestação muito tranquila, sem sobressaltos, se informaram muito, se empoderaram , e tudo isso permitiu que eles escolhessem ter seu segundo filho em casa, e estavam muito seguros dessa decisão. A Lari, sempre muito tranquila, com uma voz doce, com um jeito meigo, e muito forte, pariu como se já tivesse parido um bocado de filhos… me impressionou muito a leveza e ao mesmo tempo a força que esta mulher emanava.

E é engraçado falar isso, mas mesmo para quem não é da família, não é a figura do marido por exemplo, que está ali sempre junto, na hora é como estivéssemos parindo junto, entramos em total sintonia, e a gente sofre junto, a gente ri junto, a gente chora junto, e nascemos e renascemos todos juntos!  E toda esta experiência é maluca demais, é quase inenarrável, é algo tão forte que fica dias e dias e dias ressoando dentro de mim, me ensinando, amolecendo couraças, mas ao mesmo tempo me fortalecendo e me permitindo evoluir…

Por tudo isso não tem como não ser imensamente grata ao universo pela oportunidade, às mães e pais que me encontraram e me chamaram para fazer parte deste momento tão importante na vida deles, à todos os parceiros e amigos que fui encontrando nesta caminhada!! E hoje, quero agradecer muito à Lari e ao Álvaro, por fazerem parte desta minha caminhada, e por me permitirem também fazer parte da caminhada de vocês. pelos sorrisos e lágrimas de alegria que compartilhamos. Muito Obrigada!

E agora seguem os relatos maravilhosos destes pais. Notem que falei no plural, sim, porque hoje também tem relato de pai!! :D

Hoje nasceu o João.
De 42 semanas, circular de cordão, mecônio e uma cesárea prévia, isto é, tudo indicando uma nova cesárea.
Mas o João nasceu de parto normal. Parto normal e domiciliar.
Isto mesmo, e por uma opção NOSSA.
O “nossa” aqui significa da minha esposa. Eu, como principal coadjuvante, apoiei-a de maneira incondicional desde o início. Era o mínimo que poderia fazer. Mas foi a Larissa quem decidiu, sonhou, desejou e correu atrás de informações, equipes de parto e todo o necessário para que o João nascesse da forma mais natural, acolhedora e “humanizada” possível. É estranho usar esse termo para um parto, afinal, todos os partos de humanos deveriam ser humanizados, mas não é bem assim.
Num país como o nosso em que cerca de 52% dos partos são cesáreas – chegando a 80% na rede particular -, mesmo com as recomendações da OMS de não ultrapassar os 15%, é quase uma afronta você dizer que optou pelo parto normal. Mesmo porque, quando se fala em “parto normal”, recordam-se uma série de intervenções muito invasivas que tornam essa parto tudo, menos “normal”. A partir do momentos que os partos passaram do universo privado para os hospitais, as gestantes passaram a ser tratadas como doentes e tirou-se a naturalidade do ato de parir. Construímos deuses sobre a medicina e o avanço científico, pelas suas possibilidades de salvar vidas, mas esquecemos daquele belo livro, “Frankenstein”, que nos mostra que esses também criam seus monstros. Esquecemos uma verdade simples: “mulheres sabem parir e bebês sabem nascer”.
Entendi isso profundamente essa noite.
O parto ativo da Larissa durou cerca de cinco horas e, nesse interim, nós tomamos banho juntos, nos abraçamos, namoramos, conversamos, fiz carinho nas suas costas, escutamos muita música e ficamos num ambiente familiar e acolhedor.

No parto do Pedro, no hospital, lembro de estar muito perdido, de não poder tocar em nada, muito menos na minha esposa, e sair atrás da médica que carregava o Pedro para uma série de procedimentos tétricos.
O João nasceu e foi direto para o colo da minha esposa. Acordamos o Pedro, que veio conhecer o irmão e ficamos ali, num momento único em família: o Pedro fazendo carinho na mãe, no irmão e no pai. Ele não conheceu o irmão pelo vidro de um berçário, mas pode estar junto conosco. Ele cortou o cordão umbilical e pode perguntar tudo que sua curiosidade de menino de 4 anos quisesse saber. Ficou com o irmão, não precisou visita-lo num hospital e ter que sair para dormir na casa de alguém. Creio que isso será fundamental para a relação dos dois no futuro.
Tivemos pessoas maravilhosas que nos ajudaram muito, nos deram segurança e fizeram desse um momento singular e real. Porque isso tudo só foi possível graças a Deise, a Carla e a Márcia que não mediram esforços para que o sonho da Lari acontecesse com segurança, mas também com muito carinho e amor. Porque é isso também: a segurança e o bem estar do bebê e da mãe sempre estiveram em primeiro lugar. Não foi na loucura que fizemos isso, sempre estivemos amparados por pessoas que acreditam que nascer é um ato normal, que deve ser monitorado, mas que – via de regra – não precisa de intervenções. Basta dar tempo e apoio que as coisas fluem. Temo pelo o que poderia acontecer com minha esposa se o trabalho de parto dela fosse num hospital e durasse o que durou: no mínimo uma episiotomia; ou uma cesárea.
Bem, o João nasceu de 42 semanas, circular de cordão, mecônio e uma cesárea prévia de parto normal.
Nasceu sambando na cara da sociedade machista que deseja determinar como, quando e onde as mulheres devem parir.
Poderia – e até pensei em várias coisas durante o trabalho de parto – escrever sobre como isso é um belo ato de “desobediência civil”; ou sobre os controles dos corpos; sobre estudos randomizados que mostram como nascer dessa forma é muito mais seguro.
Mas no fim, esse texto todo é só para dizer o quanto me orgulho da minha esposa, que lutou muito para que isso fosse possível e de sua coragem. Não só durante o trabalho de parto – pois nesse ela foi fenomenal-, mas em tudo que veio antes para que pudesse estar muito empoderada desse ideal e não ter desistido desse sonho que também era o meu. Sempre disse para a Larissa que ela era uma mulher arrojada. Hoje ela deu mais uma prova disso.

Álvaro Fonseca Duarte

E segue agora o relato da Lari:

Na primeira vez em que fiquei grávida, do Pedro, em 2010, acabei fazendo uma cesárea. Sempre quis o parto normal e deixei claro pra médica, que “concordou”. Estava com 40 semanas e cinco dias e nenhum sinal dele querer nascer. A médica insistiu, dizendo que teríamos que fazer a cesárea. Eu, na ignorância, fiz. Lembro até hoje que fui ter meu filho triste e feliz. Triste porque jamais quis cesárea, queria muito que ele nascesse de forma natural e isso me foi roubado. E feliz, claro, porque iria conhecer o amor da minha vida, o Pedro. Quando ele nasceu, eu estava com os braços amarrados. Logo que nasceu eu vi ele tão rapidamente, e fiquei lá, sozinha, enquanto o Álvaro acompanhava os procedimentos tétricos feitos com ele. Só fui vê-lo acho que mais de uma hora depois, nem lembro. Enfim, não foi um nascimento respeitoso, como eu sonhei pro meu filho.

Em 2013 assistimos o renascimento do parto, e como eu chorei, pois aí tive plena consciência que realmente fui enganada e que o Pedro foi desrespeitado quando nasceu e sofreu. Decidimos então que no próximo filho seria diferente.

Comecei a pesquisar sobre parto domiciliar e me encantei. Era isso que queríamos. Tive total apoio do meu marido, pois se isso não acontecesse, jamais teria.

Em agosto de 2014 engravidei. Que alegria. Já estávamos tentando a alguns meses. Lembro que o Pedro (4 anos) pulou na cama e o Álvaro pulou no chão de alegria.

Acabei indo em uma ginecologista querida, mas sempre querendo o parto domiciliar. Uma vez comentei com ela e na hora me disse que era muito perigoso. Outra vez perguntei sobre episiotomia, e me disse que às vezes era necessário. Na hora resolvi mudar de médico. Fui no Dr. Álvaro, que é super humanizado e me apoiou no parto domiciliar. Disse que os riscos de um parto domiciliar, para um gestação tranquila e saudável como a minha, eram os mesmos que em um hospital.

Comecei a frequentar as rodas de conversas do grupo Empodera com meu marido, e decidimos que a Deise Basquera estaria nos assistindo no parto do João.

Durante a gestação não foi fácil. Quero dizer que é uma luta você querer ter um parto respeitoso e, muito mais, domiciliar. Tive que omitir pra muita gente. Por não conhecerem, as pessoas acham que é uma coisa do outro mundo, onde é tragédia na certa.

Estávamos muito firmes em nossa decisão. Lá por 38 semanas as coisas começaram a ficar um pouco complicadas. Só ouvia história triste. Não sei como acontecia, mas chegavam a mim inúmeros relatos de partos domiciliares em que a gestante precisou ir para um plantão. Parece que tudo ia contra nossa decisão. Isso minou um pouco minha coragem, mas mesmo assim, não mudamos nossa posição. Comecei a ficar nervosa com a possibilidade de ter que precisar de um hospital no meu parto e sofrer violência obstétrica.

E as semanas foram passando, 39, 40, 41 e nada, para o meu desespero. Não queria saber de hospital de jeito nenhum. O meu lugar seguro era em casa (da minha mãe). Se passasse de 42, teria que ser em hospital. O que me consolava era que seria com o Dr. Álvaro.

Com 41 semanas e 4 dias estava muito nervosa. Como disse antes, fiquei um pouco insegura, por ter que lutar tanto pra ter esse parto. Liguei pra Luciana, uma amiga psicóloga que trabalha com gestantes, e que teve 4 partos domiciliares. Ela me deu tanta força, me aconselhou a relaxar na casa da minha mãe (onde seria o parto). No outro dia, sábado, fui lá e entrei na banheira. Fiquei por mais de uma hora, ouvindo a minha playlist, rezando e conversando com o João. Saí de lá outra pessoa, a mesma que estava segura antes de 38 semanas. Minha doula Carla Bechara também me deu muita força e apoio, me ouvindo quando eu precisei.

No domingo quis ficar em casa, no meu ninho, com minha família. Comecei a sentir cólicas fortes durante o dia e fiquei muito sensível. O dia passou e eu e o Álvaro ainda estávamos confiantes, mas um pouco preocupados.

Por milagre de Deus e de Maria, em quem confiei meu parto, as duas da manhã de domingo pra segunda, com 41 semanas e 6 dias fui ao banheiro e começou a sair muco com um pouco de sangue. As contrações começaram variando a intensidade, de fraca à média (eu nem imaginava que a intensidade aumentaria tanto). Avisei o Álvaro e comemoramos juntos o que tanto desejamos. Mandei mensagem pra Deise e pra Carla e fomos monitorando as contrações. Depois tentei dormir, mas estava com tanta ansiedade que quase não consegui.

De manhã as contrações estavam suportáveis e tranquilas.

Doía um pouco, eu parava, respirava e depois passava.

Levamos o Pedro pra escola e fomos pra casa da minha mãe. A Deise (enfermeira obstetra), a Carla (doula) e a Marcinha (fotografa maravilhosa) chegaram na hora do almoço. Minha mãe fez almoço, uma delícia, eu comi bastante. Caminhei muito, com a Carla e com o Álvaro (eles revezavam). O condomínio da minha mãe tem um lago lindo, onde dei muitas voltas.

Era um ambiente tão gostoso, tão familiar e acolhedor. Conversávamos bastante e dávamos risadas também. A Carla fez massagem em alguns pontos pra acelerar o trabalho de parto e um chazinho delicioso pra aumentar as contrações. A Deise monitorava as contrações e auscultava o coração do João. Tudo muito diferente de um hospital, tudo como sonhei, pois parto deveria ser um evento familiar.

Eu me sentia muito bem cuidada e amparada.

No fim do dia eu comecei a ficar angustiada, pois parecia que o trabalho de parto não evoluía. A minha parteira Deise disse que era assim mesmo e que de uma hora pra outra ia avançar. Mesmo assim estava um pouco preocupada.

Nesse dia eu comi bastante, pois a fome era muita. Minha mãe fez bolo, canjica, janta…Estava com bastante energia.

A meia noite as contrações começaram a aumentar e quase uma da manhã saiu um pouco de sangue. O trabalho ativo tinha começado. Nossa, que dor! Aí eu percebi que minhas contrações anteriores não eram quase nada. Doía muita, mas a dor sempre passava.

Meu marido ficou comigo o tempo todo, me dando carinho, amor e sua mão para eu apertar e esmagar.

Fui para o chuveiro, bola, banheira, mas a dor sempre voltava. Eu gritava e isso me ajudava a externar. Tudo ia ficando muito intenso, e ia chegando a hora. A coisa foi ficando forte, e eu falei a frase pro Álvaro: “ Será que eu vou aguentar amor, tá difícil”, e ele disse “aguenta sim, por isso casei com você”.

Também perguntei pra Deise se ia demorar, e ela sugeriu fazer um toque. Durante a gestação e o trabalho de parto, esse foi o único toque (O Dr Álvaro disse que era desnecessário e eu não pedi). Estava com 8 de dilatação, ufa, que alívio. Se ela me dissesse que estava com menos, ia desanimar, por isso não pedi antes.

Comecei a sentir vontade de fazer força. Começou devagar e foi aumentando. Senti o círculo de fogo e meu João estava chegando.

Doeu muito, mas que dor boa, ia trazendo meu filho. A cabeça dele ia e voltava na vagina. Lembro q passei a mão na cabecinha dele dentro de mim. Emoção que me deu forças pra continuar.

Vieram mais umas 3 contrações e fiz muita força, e veio a cabeça dele e depois o corpinho. Que maravilha. Um bebezão de 3830 kg, lindo. Logo que ele saiu de mim ele veio pro meu colo e nos olhamos. Aqueles olhinhos bem abertos me observaram por uns segundos antes de chorar. Sua mãozinha estava no meu peito. Nunca vou esquecer essa cena.

Logo o Pedro veio conhecer o irmão. A Deise foi acordar ele e o trouxe. Ficou maravilhado com o irmãozinho tão pequeno. Fez um carinho com todo cuidado no irmão.

Meu pai veio chorando de emoção, ou de alívio, não sei, pois ouviu meus gritos a madrugada toda.

O Álvaro estava do meu lado todo tempo.

Depois de um tempo saímos da piscina e fomos pra cama. Esperamos a placenta sair. E quando o cordão parou de pulsar, o Pedro e o Álvaro o cortaram. Foi emocionante.

Depois a Deise examinou o João, e estava tudo certo.

A Deise me examinou e levei 3 pontos somente. Achei que seria mais, mas foi só a sensação quando ele passou pela vagina.

Nosso bebê não recebeu colírio. Não foi aspirado. Não foi separado de mim. Foi respeitado.

A placenta do João nós guardamos. As queridas Fabi e Márcia fizeram um carimbo, uma pintura com ela. Ficou uma verdadeira obra de arte para se colocar num quadro. Ela que nutriu nosso bebê por nove meses está guardada congelada, para um dia plantarmos uma árvore sobre ela e o João poder se lembrar de sua história.

Depois fui tomar banho com a ajuda da Carla e meu marido foi dar a atenção para o Pedro. Colocou o irmão no colo dele, que se sentiu importante e feliz por ser o irmão mais o velho.

Se fosse num hospital as coisas teriam sido diferentes. Eu queria um ambiente de família e assim aconteceu, graças à Deus e a Nossa mãezinha do céu, que intercedeu por nós desde o começo. Sempre dizia que queria parir como ela, naturalmente, e eu consegui.

Foi a experiência mais marcante e intensa da minha vida. Faria tudo de novo quantas vezes fosse preciso.

Larissa Bento Duarte

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